backrooms e hare krishna
há algumas semanas fui assistir ao filme backrooms e escrevi um pouquinho sobre finais de semana do mês passado que envolveram ir até a avenida paulista. o post acabou ficando perdido aqui nos rascunhos, mas, relendo, decidi que hoje ele verá a luz do dia (ou da tela, no caso).
sou um grande fã de cinemas de rua e um dos privilégios de se morar na cidade de são paulo é a variedade de lugares legais que existem para assistir a filmes. no dia 12, a alguns sábados atrás, estive junto do meu namorado no cine belas artes para assistir a backrooms, como havia comentado que queria fazer no post anterior.
devo confessar que não sou o maior dos entusiastas de filmes de terror, mas esse em específico me deixou muito intrigado para ver. fiquei muito curioso em torno de como adaptariam um conto nascido na internet para os cinemas, pois, na minha cabeça, as chances eram de duas a uma: ou ser algo extremamente caricato, ou algo muito bem feito. para minha surpresa, não sei se consigo encaixar em nenhuma das duas caixinhas que eu mesmo criei.
realmente achei a proposta muito legal e achei que funcionou bem todo o lance do terror psicológico que o entorno do conto pede, porém não sei se, por eu realmente não ter muito apreço pelo gênero, vide que tive a mesma sensação com midsommar, também da A24, não foi algo que achei magnífico. e tá tudo bem, nem todo filme precisa ser uma grande obra-prima.
na somatória geral, achei que, equilibrando bem as expectativas, é um filme legal de se ver no cinema.
a paulista, desde que comecei a ir mais para o centro da cidade, já foi palco de algumas loucuras que já me aconteceram. em termos de cultura, aquele lugar é um grande e rico amontoado de misturas, de pessoas, lugares e coisas para fazer, o que, por vezes, nos leva a situações um pouco engraçadas quando passamos a frequentar com certa recorrência. (ideia de post: histórias engraçadas que já me aconteceram perambulando pela cidade)
no último mês, num domingo da semana seguinte a termos assistido ao filme, aconteceu justamente de acabarmos, eu e meu namorado, na paulista novamente. os planos iniciais eram irmos até o ibirapuera, pois estou numa vibe meio "fazer o que eu prego", que, nesse caso, consistia em tocar numa grama e ver gente para ver se os sentimentos ruins realmente são depressão ou apenas reflexo de uma rotina onde eu saio de casa de noite e chego em casa de noite, sem ver o dia passar.
apesar de ter sido um dia legal, foi um dia em que tudo deu errado: nos encontramos tarde, pelo fato do meu namorado morar num sentido contrário de onde moro, e, quando estávamos prestes a pegar o ônibus para o parque, encontramos uma gringa perdida. em resumo: fomos ajudar a gringa e, quando o ônibus passou, nos afobamos e pegamos o que ia no sentido contrário. acabamos parando na consolação. era domingo, já perto das 15h, decidimos ficar por ali mesmo e andarmos pela paulista, visto que, de domingo, a avenida fica fechada e muita coisa acontece por lá.
nessa caminhada pela avenida notamos um cheiro de incenso, cravo, tempero, umas pessoas pintadas e vestidas de uma forma diferente e, quando nos demos conta, estávamos atravessando o ratha yatra, um festival hare krishna. caminhamos até o nível do parque trianon e, como o objetivo inicial era irmos ao parque, resolvemos entrar. ainda sem entender muito bem onde estávamos, sentamos, eu e meu namorado, numa mesinha dentro do parque, onde ficamos jogando conversa fora apenas para aproveitar o dia, eis que surgem duas senhoras, totalmente trajadas de roupas típicas, rostos sujos com aqueles pós coloridos de festivais e ofegantes, se convidando para sentar junto com a gente.
ficamos totalmente sem reação com a forma como elas chegaram e deixamos que elas se sentassem, já que não nos deram nem a oportunidade de falarmos não. estava eu de frente pro meu namorado, e elas uma de frente para a outra, numa mesa de quatro lugares. qualquer pessoa em sã consciência teria levantado e cedido a mesa. mas não, a situação foi tão estranha que ficamos os quatro nos encarando. quando perceberam, começaram a puxar papo entre si e comentar o quão a comida que estavam distribuindo no evento era maravilhosa, como a atmosfera estava incrível e como estavam se sentindo bem esotericamente. como remédio para doido é doido e meio, resolvi entrar no meio da conversa das duas e perguntei o que estava acontecendo ali, foi o suficiente: dali para frente desembestamos a conversar sobre a cultura hare krishna sem eu nem saber o que tava falando.
meu namorado ficou simplesmente incrédulo, me olhando sem acreditar no que estava acontecendo.
uma delas, a nancir, uma hora começou a contar sua história de vida e como se converteu ao hare krishna há 30 anos: de família rica, casou-se com um outro bem de vida e se mudaram para o rio de janeiro. o bom moço se mostrou um moço controlador e proibiu ela de seguir o que considerava sua vocação, que era ser artista plástica, mandando ela escolher entre ele ou a pintura. meteu o pé e voltou para são paulo sozinha para recomeçar em seu humilde apartamento em higienópolis e se dedicar às artes. cruzou com pessoas do hare krishna em suas exposições de rua e acabou convertida.
fiquei pensando o quão distante é a minha realidade para a de uma pessoa que pode se dar o luxo de ser hipponga, morar em higienópolis, vender gravuras na praça benedito calixto e apenas se preocupar em cultuar um líder. meio doido.
depois a segunda, lilah, contou que tinha se convertido à religião fazia 3 anos: vendedora ambulante de incenso que perambulava pelo centro de são paulo, estava passando por maus bocados, cruzou com uma carreata de um dos líderes do movimento que acontece aqui no brasil, ofereceu um incenso a ele, ele aceitou, ela se sentiu tocada por ele ter falado com ela e no fim virou devota.
conversamos sobre a vida, sobre propósitos, renúncias e afins. me contaram os rituais de devoção ao líder, que se privam de ouvir músicas, comer carne e consumir coisas que são consideradas vícios (café, açúcar, cigarro e afins) e como sentem falta dessas coisas, mas que não podem fazer por serem fiéis.
tivemos um mega papo cabeça e estava de fato muito interessado em toda a cultura em torno do movimento ao qual elas estavam inseridas e como é importante determinadas coisas fazerem a vida ter sentido, até que em dado momento começaram uns papos de: "vocês dariam bons devotos..." e "vamos no templo, estamos indo agora, lá podem conhecer o líder..." onde a forma de querer que acompanhássemos elas passou a ser um pouco incisiva. tivemos que usar as mais esfarrapadas das desculpas para sair dessa situação: "sabe o que é... temos um compromisso bem agora, não vamos conseguir acompanhar vocês, pois estamos indo a um outro evento nesse mesmo momento".
dali saquei: no fim, o modus operandi do extremismo religioso, de sugar a individualidade das pessoas aos poucos e abocanhá-las em momentos de vulnerabilidade, é o mesmo, seja de vertente cristã ou não. mudam apenas os nomes, as figuras continuam as mesmas.
voltei para casa aquele dia triste, pois às vezes acho que minha vida seria mais fácil se eu fosse um hippie delulu que mora em higienópolis.



Oi Jhon!
ResponderExcluirNo final, que rolê aleatório esse de hare krishna kkkk Não sou nada familiarizada com essa religião, mas sinto que as pessoas não devem viver bem seguindo isso. Vocês só querendo relaxar... de rir pra não chorar.
Abraço
https://falacatarina.com/blog/
acho muito interessante o lado da religião onde partem de serem uma comunidade, viverem o coletivo de maneira honesta e compartilharem valores que culminem num bem-estar geral, mas acho meio bizarro quando começam a ir para um lado meio de podar o que você, enquanto indivíduo, é, seja lá em qual crença for. equilíbrio sempre é a chave de tudo.
Excluirabraços, bru! :)
adoro teu blog.
Que legal, tenho muita vontade de ir em algum cinema de rua, nunca tive a oportunidade! E sobre religião, eu fico muito irritada quando passa de uma troca de experiências pra quererem te convencer a ir e se "converter". E concordo muito, as figuras continuam as mesmas, triste demais se aproveitarem assim da vulnerabilidade alheia, né?
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